By Ana Bailune
"Toda a arte é completamente inútil." -  Oscar Wilde
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Às vezes, o final da vida é o verdadeiro recomeço, onde novos laços são formados e velhos laços são desfeitos.
 

 
Quando a família soube que Martha compraria um terreno em uma cidade do interior e começaria a construir uma casa, ficaram estarrecidos. Afinal, ela estava com sessenta e três anos de idade, morava em um bom apartamento bem localizado e próximo a hospitais, caso ela necessitasse, e ao alcance dos três filhos e cinco netos. Por que, eles pensavam, a mãe está com essas ideias malucas na cabeça? Onde já se viu, construir uma casa em um lugar tão distante e nessa idade?
 
Martha acabara de ficar viúva. Não via mais motivos para permanecer onde estava. As amigas que tinha eram fruto das amizades do falecido marido, esposas dos amigos, e ela as mantinha, apesar de não ter quase nada em comum com a maioria delas, para agradar ao marido. Casara-se em uma época na qual o dever da mulher era este: ser boa esposa, boa mãe e seguir o marido. E ela cumprira seu papel; agora estava livre.
 
Olhou-se no espelho: a pele sob o queixo começava a ficar flácida, as mãos tinham algumas veias mais grossas. Os cabelos brancos ela assumira de vez, e estavam adequadamente cortados e penteados, os cachos muito bem domados em um corte curto. Ainda era bonita; os amigos dos filhos e dos netos viviam dizendo isso dela: "Como sua mãe / avó é bonita!"  Mas era exatamente disto que ela estava cansada: de ser reconhecida apenas como mãe ou avó de alguém.
 
Ela queria de volta a sua identidade. Queria ser novamente chamada de Martha, não de 'vó', 'mãe' ou simplesmente 'querida' ou 'amiga.' Às vezes ela se perguntava se as pessoas sabiam realmente o seu nome, já que raramente o usavam quando falavam com ela. Ela olhou-se no espelho ainda por algum tempo, repetindo em alto e bom, a voz se perdendo entre as paredes do enorme apartamento vazio: "Martha. Martha. Martha." E dentro dela, uma mulher há muito tempo adormecida despertou.
 
Ela foi conhecer a cidade onde ficava o terreno que lhe interessara, em uma cidadezinha vizinha dali. Não queriam que ela dirigisse sozinha, mas mesmo assim, Martha agarrou sua bolsa e foi, deixando-os falarem sozinhos. Lá chegando, o corretor levou-a ao terreno: era um pedaço de terra plana de mil e duzentos metros que ficava entre árvores frondosas, a quinze minutos do centro da cidade, que não passava de um pequeno burburinho de prédios (mercados, um cinema, algumas lojinhas ) com dois quilômetros de extensão. Era exatamente o que ela queria.
 
Martha caminhou entre as árvores; a tarde avançava, e os passarinhos se preparavam para dormir. Raios de sol infiltravam-se entre as copas das árvores. E então a imagem de uma casa começou a ser construída dentro da cabeça dela: as cores das paredes, a varanda ampla que rodeava a casa, onde ela penduraria uma rede e colocaria muitas plantas, o jardim de inverno, a piscina de água natural. Ela conseguiu escutar as vozes dos netos brincando por ali, jogando-se de qualquer maneira na piscina, que jogaria água para fora e ela ralharia com eles. Martha viu a si mesma abrindo os olhos de manhã ao canto de centenas de passarinhos, e descalça, caminhando por uma trilha de pedras em seu jardim. 
 
Ela pensou em colocar balanços nas árvores, balanços que iriam bem alto quando as crianças os estivessem usando, e elas poderiam tocar as copas das árvores com as pontas dos pés. Ela viu a si mesma em um deles, rindo e sentindo um frio na barriga quando chegava às alturas e descia de repente, o vento zumbindo em seus ouvidos. 
 
Ela viu no passeio da casa os carros dos filhos estacionando, os faróis ainda acesos enquanto as crianças abriam as portas e saltavam correndo em direção a ela.
 
Ao conversar com uma futura vizinha sobre o local a fim de receber algumas informações, ela se viu dizendo a ela que estava fazendo o caminho inverso: "Todo mundo na minha idade muda-se para um apartamento no centro da cidade, perto dos filhos. Bem, eu morei na cidade a minha vida toda, fui muito feliz, mas sempre sonhei em morar em uma casa. Assim, acho que estou fazendo o caminho inverso!"  A vizinha olhou-a com admiração, convidando-a para entrar. As duas se despediram após um café, e Martha voltou para casa, chegando à noite. 
 
Ao abrir a porta da sala, deu com os filhos e netos preocupados, e eles logo começaram a ralhar com ela: "Mãe, onde esteve até essa hora? Quase colocamos a polícia trás de você!"
 
Martha riu, e encolhendo os ombros, respondeu: "Eu disse! Fui ver o terreno que eu vou comprar, e fecho o negócio amanhã mesmo." Ela escutou pacientemente os protestos, enquanto colocava a mesa do jantar. Não disse uma palavra. Os netos a cercavam, perguntando com entusiasmo como seria casa, e ela a descrevia para eles, que excitados, pensavam nas férias maravilhosas que teriam. Era sempre assim: as crianças sempre enxergavam a parte boa da vida.
 
Helena, a filha mais velha, perguntou: "E onde você vai arrumar o dinheiro para construir a casa, mãe?"
 
Martha já tinha pensado em tudo, e respondeu sem hesitar: "Com a venda do apartamento e os investimentos que herdei do seu pai." Os filhos protestaram ao mesmo tempo: "Venda do apartamento? Você não pode vender o apartamento! Ele faz parte da nossa história de vida!" Martha encarou-os e esclareceu: "Tarde demais, queridos. Ele já foi vendido. Seu pai deixou-a apenas para mim na partilha, lembram? Na verdade, este é o nosso jantar de despedida, pois entregarei as chaves daqui a uma semana."
 
Diante do inevitável, eles aos poucos começaram a se consolar com a ideia, se bem que Junior, o filho mais novo, pensou em mandar interditar  a mãe e tentar reverter a venda do apartamento. Felizmente, os outros irmãos discordaram. 
 
Uma semana mais tarde, Martha mudava-se para sua nova cidade, onde ficaria em uma pensão até a casa ficar pronta. Dia a dia ela acompanhava a obra, escolhendo à dedo cada tijolo, e mais tarde, cada peça de decoração. Doara aos filhos tudo o que havia no seu antigo apartamento, pois queria começar uma vida inteiramente nova, e os móveis e objetos de seu antigo apartamento não tinham lugar em sua nova casa, que além de bem menor, era em estilo rústico. 
 
Oito meses depois, ela mudava-se para sua nova casa mobiliada. Houve uma festa de inauguração, onde seus filhos, netos e amigos mais chegados andaram pelo local aprovando e desaprovando suas escolhas. Martha caminhava indiferente entre os elogios e críticas, cada vez mais convencida de que aquela tinha sido a escolha mais certa de toda a sua vida. por que? Porque, na verdade, aquela era a primeira e única escolha de sua vida que era só dela. 
 
Martha contratou um jovem caseiro. Ele a ajudava com as compras, dirigia o carro para ela quando ela não queria dirigir e cuidava do jardim. No começo, os netos vinham a cada quinze dias. Eram dias muito festivos para Martha! Eles tomavam o ônibus na sexta-feira após a escola e chegavam excitados, ainda vestindo seus uniformes, e os pais vinham buscá-los no domingo de manhã, passando o dia com ela e indo embora à noite. Tudo estava sendo exatamente como ela planejara. 
 
Os períodos de férias eram longos e felizes, e eles também traziam alguns amigos. Martha ficava na cozinha, preparando sucos e sanduíches, revivendo a época em que seus filhos eram crianças e ela fazia tudo aquilo por eles. Ela acabou contratando a noiva do seu caseiro para ajudá-la com a casa, e ambos casaram-se, passando a viver na sua garden house. Os filhos de Martha ficaram mais tranquilos, sabendo que a mãe não estava tão sozinha. 
 
Porém, com o tempo, as crianças começaram a se cansar daqueles finais de semana e férias prolongadas na casa da avó. Elas queriam novas aventuras. Ao mesmo tempo, os filhos ficavam cada vez mais ocupados em seus empregos, cada vez mais cansados, e não queriam mais dirigir por quase três horas a fim de chegarem lá. As visitas foram, aos poucos, rareando, até que praticamente cessaram. 
 
Martha caminhava pelo jardim vazio de crianças e se perguntava o que tinha acontecido. Por que eles não vinham mais? Até mesmo o aniversário da neta mais velha, que ela planejara comemorar em sua casa com um churrasco, tinha sido cancelado quase na última hora, pois ela optara por um final de semana na praia. A menina insistiu pela presença da avó, mas Martha recusou-se: praias, sol forte e barulho de carros de som não combinavam com ela. 
 
"Não, obrigada. Mas divirta-se."
 
Porém, o casal de caseiros engravidou, dando à luz uma menininha linda que Martha praticamente adotou como sua neta. A menininha preenchia seu tempo livre, e ela a cobria de mimos e de presentes. Ao saberem da novidade, os netos voltaram, enciumados com a presença da pequena intrusa. Os filhos também a criticavam, pois ela estava gastando dinheiro com uma menina que nem sequer era sua parente, ao invés de presentear seus próprios netos!
 
Mas Martha não ligou para os comentários de sua família, e continuou mimando a garotinha, cujo nome era Linda. Ao mesmo tempo, o caseiro e sua esposa tornaram-se para ela, cada vez mais, membros da sua família.  Algum tempo depois, os netos, que já sentiam as ânsias da adolescência que se aproximava, deixaram novamente de visitá-la. Enquanto isso, Linda completou três anos de idade, e as duas ficavam cada vez mais próximas. 
 
Martha sentia falta da presença dos filhos e netos, mas continuava a viver na pequena cidade e em sua casa dos sonhos. Ali, ela se sentia feliz. Mas seu coração deu sinal de vida - ou de morte. Ela sentiu-se mal um dia, e descobriu, após alguns exames, que não tinha mais muito tempo para viver. Assim, ela resolveu tomar uma atitude apressada, mas nem por isso intempestiva: foi ao cartório e deixou sua casa para a única herdeira que Martha sabia que a valorizaria: a pequena Linda. 
 
Martha escondeu de todos a sua doença. Ainda viveu seis meses após a descoberta de seu problema cardíaco, caminhando pelo jardim, absorvendo cada raio de sol e cada gota de chuva, deixando-se envolver pelo vento, que penteava as ondas de seus cabelos brancos agora crescidos e que ela mantinha soltos, os pés descalços sobre a relva, o barro e as pedras. Ela viveu intensamente. Ela foi intensamente feliz.
 
Acharam-na caída no passeio que ia dar na porta de entrada da casa, após uma noite de tempestade. O caseiro alegou que jamais imaginaria que Dona Martha fosse sair para caminhar em uma noite como aquela!
 
Hoje, naquele jardim, brinca uma menina de cabelos pretos e lisos, entre as árvores e plantas do passeio. Ela se deixa ir bem alto em um dos balanços, e as pontas de seus pés tocam as copas das árvores. Ninguém sabe, e Linda acha melhor não dizer a ninguém, mas alguém a empurra bem alto; ela  vê  Martha de soslaio toda vez que olha para trás em um de seus voos.  
 
 
 
FIM


Ana Bailune
Enviado por Ana Bailune em 17/09/2019
Alterado em 17/09/2019


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