By Ana Bailune
"Toda a arte é completamente inútil." - Oscar Wilde
Textos
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Do meu blog "Histórias", 

 





Depois de Anos

Naquele dia, eu caminhava pela cidade enfeitada. Canções de Natal explodiam nos auto-falantes, e pessoas aglomeravam-se nas calçadas, os rostos animados, os braços ocupados por bolsas e pacotes de presentes. Eu mesma trazia na bolsa a minha lista de natal – mais curta a cada ano – e pensava em passar a manhã envolvida com minhas compras natalinas.
 
Súbito, uma chuva alegre e ritmada começou, e muitos correram para se abrigarem sob marquises, em bares, lojas e cafés. Eu também entrei depressa em uma delicatessen para tomar um café enquanto a chuva não passava. Dei graças a Deus por não ter comprado nada ainda e ter as mãos vazias. Acomodei-me em uma mesa num canto, de onde podia ver as pessoas e carros passando na ruas. Reparei nas decorações das vitrines iluminadas, e deixei que o espírito daquela época me invadisse. Sentia-me leve, alegre e em paz.
 
Eu observava os rostos das pessoas e tentava adivinhar o que estariam pensando, de onde vinham, o que faziam... era um jogo solitário que eu gostava de jogar desde que era uma adolescente – naquela época, jogava-o com minhas amigas: sentávamos em um banco de praça e ficávamos adivinhando a vida dos transeuntes. Aquela que tivesse mais imaginação e criasse a história mais incrível, tomaria o sorvete pago pelas outras.
 
De repente, um rosto chamou-me a atenção, trazendo consigo memórias muito antigas. Meus olhos, que tinham passado por ele rapidamente, refizeram o percurso da paisagem até onde ele estava. Um homem. Ele olhava uma vitrine, sob um amplo guarda-chuva preto. Observei-o, enquanto tomava um gole do meu expresso. Algo tentava aparecer na minha memória, que parecia estar com as duas mãos dentro de um baú cheio de coisas antigas, tentando encontrar algo... lembrei-me de mim mesma, em um natal já muito distante no tempo, chorando à janela do nosso apartamento e sendo consolada por meus pais. Acabara de receber uma notícia muito triste, e logo na noite de natal. 
 
A amiga que me telefonara tinha sido clara e imperativa: “Morreu. Mês passado. Um acidente de carro em Miami. Só soube hoje.” E eu, uma jovem romântica e apaixonada, observava meus sonhos caírem pela janela do apartamento e se despedaçarem na calçada lá embaixo. É muito difícil imaginar que, daquele dia em diante, teremos que conviver com a ausência de alguém para o resto de nossos dias, e portanto, reescrever nossos sonhos, sonhos esses aos quais nos acostumamos. E eu, como qualquer jovem que tinha um amor platônico, criava em minha cabeça mil situações que nós viveríamos juntos, assim que ele descobrisse o quanto estava apaixonado por mim. E mendigava cada olhar, interpretando cada coisa que ele dissesse ou fizesse como um sinal de que eu estava certa... 
 
Os colegas diziam que não tínhamos nada a ver um com o outro, que éramos como água e vinho, preto e branco, noite e dia. Mas nada me fazia desistir de sonhar; sonhar com ele. Conosco. Se ele me olhasse ou sorrisse para mim, eu ganhava o dia! Chegava em casa e trancava-me em meu quarto, os discos de rock na vitrola, deitada em minha cama olhando para o teto branco onde passavam-se cenas de amor: nosso primeiro beijo. Nós, de mãos dadas no pátio da escola. Ele dizendo, baixinho em meu ouvido, que me amava. Todas as garotas morrendo de inveja.
 
Certa vez, fiquei sabendo que ele andava indagando sobre mim. Perguntava às minhas amigas se eu estava apaixonada por ele. Aproximava-se de mim mais do que antes, sendo gentil de forma especial. Por vezes, eu o pegava me observando demoradamente, e ele sustentava meu olhar. Mas logo vieram as férias de final de ano, e ele ia passá-las com a família em Miami. Meu sonho teria que esperar para tornar-se real. Despediu-se de mim com um abraço demorado – mais demorado do que o que ele dera nas outras garotas – e um beijo cheio de promessas. Disse-me que esperasse por ele. Deixou todos os meus sonhos ao ponto de fertilidade máxima. Naquela época, eu andava nas nuvens, e às vezes nem percebia quando alguém falava comigo. Gostava de encontrar um canto no jardim e sentar-me lá, no meio das plantas, escondida pelos arbustos, e fantasiar...
 
Depois que eu soube de sua morte, as amizades foram se dissolvendo aos poucos, ao longo dos anos. Nunca mais ouvi falar de minha amiga ou de qualquer colega de classe daquele ano. Fiz questão de perder contato com qualquer pessoa que me fizesse lembrá-lo, tal a dor que sentia.
 
Um trovão trouxe-me de volta ao café, do ponto no espaço – há mais de vinte anos – aonde a memória me conduzira. O homem que eu observava entrou na loja. Num impulso, e com o coração dando marteladas no peito, joguei uma nota sobre a mesa e saí correndo sem terminar o meu café, entrando na mesma loja que ele.
 
Era uma joalheria. Caminhei pelas caixas de vidro, recusando quase impacientemente quando uma vendedora ofereceu-me ajuda. Logo, achei-o sentado ao balcão enquanto uma das moças mostrava-lhe uma joia. Um anel de brilhantes. Olhando-o bem de perto, minha desconfiança transformou-se em certeza: era ele! Os inconfundíveis e longos dedos que tantas vezes percorreram minha pele nos meus sonhos. A pinta escura junto ao lábio, sob a asa direita do nariz. Os ombros fortes e largos, embora mais pesados. Os mesmos cabelos escuros e ondulados, embora alguns fios grisalhos os ornassem. E a mesma voz. Aquela voz que imaginei sussurrando o quanto me amava, há vinte anos...
Eu quis falar, mas minha voz não saiu. O que poderia dizer? Minha vida tomara outro rumo. Estava casada, e era mãe de três filhos. Mas por que ele mentira sobre sua morte? Por que? 
 
De repente, ele ergueu os olhos e me viu. Notei um certo estremecimento em seu rosto, e nossas pupilas, como que atraídas por ímãs, não conseguiam deixar de se olharem. Eu sabia que ele tinha me reconhecido. Achei que viria falar comigo, e que me explicaria tudo. Mas ele, num esforço, baixou os olhos e apenas entregou à vendedora o anel que escolhera, pedindo a ela que o embrulhasse para presente. Foi ao caixa, e pagou pela compra com um cartão de crédito. O tempo todo, eu não conseguia tirar os olhos dele. Havia tantas coisas que eu desejava saber! Ele viria falar comigo, eu tinha certeza!
 
E mais uma vez, eu vi a minha certeza ruir e escorregar para o piso da loja, indo misturar-se à enxurrada que passava no meio fio, quando ele, passando por mim feito um raio e sem olhar-me, saiu porta afora. Fiquei ali, parada, atônita. Uma vendedora veio perguntar-me se eu estava bem. Sem responder, deixei a loja e ganhei a calçada.
 
Olhei para ambos os lados da calçada, e para a rua em frente, apinhada de transeuntes. A chuva aumentara, e esquecida de abrir meu guarda chuva, fiquei encharcada em segundos. 
 
Ele sumira.
 
Da mesma maneira que morrera há tantos anos, seu fantasma dissolveu-se e confundiu-se com as luzes que piscavam nas vitrines, com as músicas que tocavam nos auto-falantes e com a chuva que corria pelas calçadas e ruas. 
E eu não sabia dizer a mim mesma o que estava sentindo. 
 
Voltei ao café. Pedi mais um expresso. Ainda faltava fazer as compras de natal.


Ana Bailune
Enviado por Ana Bailune em 02/12/2014
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