By Ana Bailune
"Toda a arte é completamente inútil." - Oscar Wilde
Textos




Um Conto de Natal  


 



Este conto é antiquíssimo. Escrevi-o quando tinha vinte e poucos anos, como uma tarefa de inglês – uma redação - do curso onde estudava. Foi publicado na internet há muito tempo, mas perdi o arquivo; assim, reescrevo-o hoje, baseado naquilo que me lembro do original e reinventando o que não lembro.


 




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Um ser extra-social perambula pelas ruas da cidade. Ele impressiona-se com as luzes coloridas que brilham nas vitrines – janelas da vaidade humana, segundo captam seus sensores- e se encanta com as alegres canções que saem dos auto-falantes pregados nos postes da cidade. “É Natal,” Ele ouve os seres humanos dizendo. 


Ele vive só. Apesar de estar sempre à vista de todos, ele é invisível. Passa despercebido entre as multidões que carregam pacotes e mais pacotes, e seus sensores não conseguem captar o sentido de tudo aquilo. 


Há muito tempo, ele fugira de seu planeta. Fora sempre ignorado ou maltratado por aqueles que coabitavam com ele. Finalmente, embarcou em uma nave de sonhos – que estraçalhou-se no solo durante o pouso, ao bater com força sobre o campo da realidade – e sumiu, para nunca mais voltar. Seus sonhos despedaçados foram desintegrando-se aos poucos, e seu coração, já frio, foi tornando-se também duro como o asfalto que seus pés nus pisavam. Lembra-se vagamente de assistir, em uma pequena caixa quadrada que transmitia imagens em preto e branco, a história de um super-herói que era bom e salvava os fracos e necessitados. Era este o seu sonho: encontrar o super-herói para que este o salvasse. Procurou durante muito tempo, em cada esquina da vida, aterrissando sua pequena nave de busca em vários locais. Aos poucos, começou a esquecer-se do rosto que sempre aparecia na pequena tela quadrada. O ser extra-social compreendeu que teria que transformar-se, ele mesmo, em seu próprio salvador e combater o mal – representado pelos seres sociais.


Em seu rosto encovado estão sepultados milhões de sorrisos. O frio do asfalto às vezes entra pelas solas dos pés e chega até o seu coração. Nesses momentos, ele saca de sua arma interestelar – canivete, navalha – e faz sangrar alguns dos seres sociais. Mas não naquela noite. Era Natal! 
Ele pensa: “Natal deve ser uma coisa boa. Se tanta gente comemora, e fica tão feliz, é porque deve haver um bom motivo! Mas... o que é o Natal? Como fazer com que seja natal também para mim?” 


Ele sai caminhando pelas ruas já desertas daquela noite de Natal. Sua nave imaginária acaba levando-o a um bairro de classe média alta, onde vivem alguns seres sociais. Ele olha pelas janelas e vê pessoas felizes, mesas fartas e árvores enfeitadas rodeadas de presentes. Seus sensores captam a mensagem, há muito esquecida: “Família.” Mas aquelas famílias são bem diferentes da sua. Ali, as crianças não eram maltratadas; eram beijadas, abraçadas e recebiam presentes. Seu coração de lata enche-se de mágoa e tristeza. Ele segue.


Chega a uma casa toda iluminada, onde avista uma cena que chama-lhe a atenção: uma senhora e um homem olham para um menininho que estende os bracinhos para o céu. Três homens muito bem vestidos carregam presentes. Animais rodeiam a cena. Ele gosta, e decide atravessar a rua para ver melhor, voando em sua nave imaginária sobre a baixa cerca que separa a cena da calçada. Ao olhar para o menino, seus olhos se enchem de lágrimas, e mesmo embaçados, seus sensores transmitem-lhe uma mensagem: “Amor.” Mas naquele instante, um homem sai de dentro da casa dos seres sociais, gritando e correndo em sua direção: “O que você pensa que está fazendo, moleque? Caia fora do meu jardim!” 


Assustado, o ser extra-social pula novamente a cerca e atravessa correndo a rua. Não percebe que uma nave de ferro, pilotada por um humano embriagado, vem em sua direção. Apenas escuta uma freada, e seus sensores sequer tem tempo de captar a sua última mensagem: “Morte.”






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Ana Bailune
Enviado por Ana Bailune em 11/12/2014
Alterado em 11/12/2014
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