By Ana Bailune
"Toda a arte é completamente inútil." - Oscar Wilde
Textos
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Onde Sempre Era Natal
 
Da calçada, Ana e Jorge observavam a construção da sua nova casa. Pedreiros, eletricistas, marceneiros e outros profissionais da construção revezavam-se num entrar e sair sem fim, carregando todo tipo de material e reproduzindo uma música de marteladas, risos, rádio tocando, gritos de instrução e de nomes sendo chamados, e ainda o barulho alegre do carro do sorveteiro que passava e era parado por um dos trabalhadores, que enchia uma caixa com picolés. Era a realização de um sonho antigo. Mal viam a hora de poderem entrar naquele espaço e chamá-lo de seu, o que só fariam dali a dois anos – após muitos aborrecimentos, como falta de dinheiro, problemas com os trabalhadores, uma crise de depressão, paredes recém construídas que tiveram que ser derrubadas, críticas de pessoas insensíveis que visitavam a obra apenas para dar palpites, enfim, uma série de aborrecimentos que geralmente fazem parte de uma construção.

Não é fácil construir. Quando o trabalho é de demolição, tudo fica pronto em um único dia. Mas construção demanda muito trabalho, planejamento, plantas, dinheiro, decepções. Mas tudo o que é feito com amor e determinação, tende a dar certo. Finalmente, Às vésperas do Natal, a casa ficou pronta. Houve uma pequena comemoração entre os novos proprietários e os trabalhadores. Uma mesa improvisada – que consistia em uma longa tábua de madeira apoiada sobre dois cavaletes – foi preenchida com as mais deliciosas iguarias natalinas, e todos puderam desfrutar daquela alegre refeição, entre as decorações natalinas que Ana conseguira arranjar quase na última hora: um pinheiro com algumas bolas e luzes coloridas e um arranjo de mesa que ela mesma confeccionou, usando pinhas que achou sob um pinheiro, folhas secas pintadas com tinta dourada em spray e algumas flores que pegou ali mesmo, no jardim da casa.

Finda a festa, os proprietários andaram pelos cômodos ainda vazios (a mudança estava marcada para depois do natal) e relembraram os momentos mais marcantes daquela obra. Ana e Jorge passaram aquela noite ali, junto à lareira acesa, sobre um cobertor de xadrez vermelho. Durante toda a sua vida, ela se lembraria daquela noite como uma das mais felizes que já tivera.

Finalmente, a mudança! Mais uma vez, a música barulhenta e alegre das pessoas entrando e saindo, carregando móveis e tapetes, coisas sendo colocadas em seus lugares e caixas de papelão sendo abertas para mostrar copos, panelas e louças embrulhados em jornal que deveriam ser cuidadosamente desembrulhados e lavados antes de serem colocados em seus devidos lugares na cozinha; As roupas eram rapidamente penduradas nos cabides do closet, uma refeição era preparada por uma das irmãs de Ana na cozinha enquanto seus jovens sobrinhos instalavam as TVs e aparelhos de som. Um dia feliz que rendeu, ao seu final, uma casa lindamente arrumada e aconchegante. E o silêncio de um sonho cumprido. Ana e Jorge, exaustos, aproveitaram o final da noite para um banho a dois, quente e restaurador, com direito a velas e incensos.

Mas apenas um mês depois, Jorge não voltou para casa. Nunca mais ele voltaria. Ana recebeu a notícia à porta vestindo um avental, o nariz sujo de farinha de trigo. Sua perda fora anunciada por um policial que segurava seu quepe entre as mãos nervosas.
De repente, a casa perdeu seu brilho, e os cômodos tornaram-se frios. Ana caminhou pela casa banhada pela luz do crepúsculo, e escutou o tiquetaquear suave do relógio que ficava na parede da sala de jantar. Ecos de risos felizes ainda ecoavam por aqueles cômodos. Sobre a cama, o pijama dobrado ainda não sabia que nunca mais vestiria alguém. Os sapatos de Jorge com as meias dentro (ela sempre ralhava com ele por nunca lembrar-se de colocar as meias na cesta da lavanderia) foi o que fez as lágrimas descerem em profusão. Ana sentou-se sobre a cama e passou a noite daquela forma, rosto entre as mãos, sem coragem para levantar-se.

Mas alguém chegou, cuidou de tudo. Colocou-a deitada e deu-lhe um tranquilizante. O dia seguinte passou entre uma neblina branca e intensa, cheia de ecos de vozes que sussurravam em seus ouvidos, mãos que acariciavam seus ombros e braços que tentavam segurar a sua dor. Olhares surgiam entre a neblina, lábios moviam-se, mas Ana não compreendia o que eles diziam.

Porém, tudo termina. E aquele dia também terminou. Após algumas semanas, o telefone foi parando de tocar e os passos que percorriam o corredor foram rareando até desaparecerem completamente. Alguém saiu e fechou a porta, dizendo que se ela precisasse de alguma coisa, era só chamar. Deixaram o freezer bem cheio, a casa limpa, as roupas passadas e dobradas nos armários.  Mas ninguém sabia o que fazer com as coisas de Jorge, e acharam melhor que ela mesma decidisse, mais tarde.

Meses se passaram, e Ana foi se erguendo aos poucos. A vida continuava, como sempre. Logo seria natal. Os pássaros ainda cantavam lá fora, e o carro do sorveteiro passava pela rua tocando sua música alegre. As roupas de Jorge iam ser doadas, e ela penduraria as suas no lugar, espalhando-as para que o espaço fosse preenchido. Triste coisa, doar as roupas e pertences de alguém que já se foi... mas a vida continua. Pelo menos, era esta frase que ela mais ouvia desde que tudo acontecera.

As mãos de Ana, após esvaziarem o armário, percorreram as prateleiras mais altas a fim de verificar se ainda restava alguma coisa. Foi quando as pontas dos seus dedos tocaram a superfície de uma caixa. Ela pegou a escada na área de serviço, e subiu. No cantinho da prateleira vazia, uma caixa embrulhada para presente, com um papel estampado de pequenas rosas debruadas de dourado. Ana abriu-a, ainda de pé sobre o degrau da escada. Havia um envelope e vários enfeites de Natal.

Ana compreendeu logo que Jorge comprara aqueles enfeites para seu primeiro natal naquela casa, que seria justamente, naquele ano. A carta dizia:

“Querida Ana,
Sei o quanto você adora o Natal. Comprei estes enfeites assim que nossa casa ficou pronta, e guardei-os até o dia de hoje para fazer-lhe uma surpresa. Espero que fique feliz. E que nesta casa sempre haja a presença do espírito do natal, durante todos os dias do ano, pois o Natal é uma época em que todos nos lembramos que devemos ser felizes. Eu quero que você seja feliz, não importa o que aconteça.
Com amor, Jorge.”

Ana enxugou uma lágrima que caiu. Pegando a caixa e seu conteúdo, dirigiu-se ao quarto de hóspedes – ainda vazio. Já sabia como atender o pedido de Jorge.

Saiu e comprou lindos enfeites e uma árvore de natal, e também  uma poltrona de veludo vermelho. Também adquiriu uma cortina e almofadas com motivos natalinos, luzes, enfim, toda a espécie de decoração natalina que ela achou bonita, e com ela, enfeitou todo o quarto. Quando pendurou as últimas luzes, já era noite.
Pegou uma fotografia emoldurada de sua lua de mel, onde ela e Jorge sorriam para a câmera, e lembrou-se daquele momento. Colocou-a sobre a mesa junto a poltrona, e debaixo dela, a carta que encontrara. Aquele quarto seria onde ela estaria sempre perto de
Jorge. Ali seria sempre Natal.

Os anos foram passando, e Ana, que era uma linda moça e ainda muito jovem, casou-se novamente e teve dois filhos. Seguiu à risca os conselhos de seu primeiro marido: ser feliz, guardando sempre o espírito do natal dentro de si e dentro daquela casa, não importando o que acontecesse. Sempre que ela se sentia triste ou desanimada, entrava no quarto do natal, fechava a porta e procurava lembrar-se de todos os motivos que tinha para agradecer em sua vida.
Recordava bons momentos, quando tinha obtido sucesso, quando seus filhos nasceram, passeios e viagens, enfim, coisas boas. Todos os seus amigos sabiam do quarto do natal, e de vez em quando, pediam para passar alguns momentos dentro dele, o que Ana nunca negava.

Eu sei disso, porque eu mesma passei muitas horas ali naquele quarto. Ana era minha amiga.
 
 
Ana Bailune
Enviado por Ana Bailune em 17/12/2014
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