By Ana Bailune
"Toda a arte é completamente inútil." -  Oscar Wilde
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Somos Cúmplices

O caso de João de Abadiânia, ou João de Deus, trouxe à tona muitas das nossas próprias falhas. O mundo vive produzindo mártires e Cristos que servem para expurgar as nossas próprias culpas. Até hoje as religiões pregam que Jesus Cristo sabia de tudo que teria que passar, e que voluntariamente submeteu-se aos sofrimentos a fim de nos redimir dos nossos  pecados e fazer com que nos arrependêssemos deles. Se esta era a missão, Ele infelizmente fracassou. Porque até hoje a raça humana continua não apenas preferindo, mas também exaltando Barrabás. 

De repente, um dos maiores médiuns de cura do Brasil, mundialmente conhecido e exaltado, se vê envolvido em um escândalo sexual e financeiro sem proporções. Ficamos sabendo que durante mais de quarenta anos, João de Deus abusava de mulheres, lavava dinheiro e praticava vários crimes "sem que ninguém desconfiasse." Todos os que passavam pelas mãos sujas dele e sofriam abusos, calavam-se. Algumas mulheres até mesmo submeteram-se voluntariamente aos abusos praticados por ele mais de vinte vezes. Porque quem é abusado, e por livre e espontânea vontade, volta aos braços do abusador, submete-se voluntariamente, e mais do que isso, na minha opinião, torna-se cúmplice, pois muitas outras mulheres foram abusadas, não apenas por João de Deus, mas também por todas aquelas que o sabiam, e mesmo sabendo-o, decidiram se calar. Se em algum momento elas tivesse se manifestado, poderiam ter evitado que tais atos se perpetuassem durante tantos anos.

Ao mesmo tempo, em toda a cidade de Abadiânia várias pessoas também sabiam de tudo o que acontecia por ali – e até mesmo auxiliavam o médium – mas nada diziam, pois o que dissessem iria contra seus interesses comerciais e econômicos. 

Há muitos cúmplices. Todos deveriam ser ouvidos, julgados e condenados, juntamente com João de Deus. Porque existe um limite entre ser vítima e tornar-se cúmplice. 

Ultimamente, talvez incentivadas pelo caso de Abadiânia, tem havido muitas reportagens sobre mulheres que sofrem abusos e agressões. Algumas foram filmadas por câmeras escondidas, e mesmo assim, as mulheres em questão muitas vezes defenderam seus companheiros agressivos, recusando-se a prestar queixas contra eles. 

Há também os inúmeros casos de pessoas que continuam a defender políticos corruptos, ladrões e assassinos, e partidos políticos cujos objetivos já se desvirtuaram dos objetivos originais há muito tempo. Continuam a exigir a liberdade destes políticos, e nada que seja apresentado como prova contra eles parece ser o suficiente. 

Tudo isso me faz buscar respostas, mas essas respostas que eu busco não são nada fáceis de serem encontradas. Por que as pessoas cismam em defenderem seus algozes? Por que elas se recusam a admitir erros, a assumir culpas? Por que as pessoas admitem que outras abusem de si e de seus direitos, e ainda defendem seus abusadores? Por que, para a maioria das pessoas, é tão difícil admitir que errou, e recomeçar?

Finalmente, encontrei parte da resposta que eu buscava – digo parte porque nada é tão simples assim – em um livro que adquiri recentemente, “O Sagrado”, do rabino, humanista, filósofo e escritor Nilton Bonder. Eis a passagem que me esclareceu:

(...) “Há cultos que como primeira informação a suas vítimas previnem que haverá uma reação contrária aos ensinamentos que estão recebendo. Simulam então como os pais ou amigos tentarão provar que tudo o que aprendem é uma besteira. Ao antecipar eventuais reações, toda vez que a “vítima” em questão sofrer alguma forma de contestação poderá ouvir as palavras do seu instrutor que já a alertara sobre essa possibilidade. As falas contrárias se tornam assim profecias autorrealizadas e em vez de produzirem dúvida e reflexão sobre as informações recebidas, as reforçam; em vez de provocar pensamento, as  ideias provocam reação. Fica assim estabelecido o circuito circular onde um indivíduo perde sua capacidade de inteligência. Todo os sistemas de inteligência dependem de sua liberdade, de estarem abertos a possibilidades, livres de vícios e aprisionamentos. Esta é a função da pergunta ou da dúvida em qualquer sistema. Mesmo as máquinas são programadas para apresentar alternativas. É a alternativa ou a sua falta que faz de um sistema uma ferramenta inteligente ou um equívoco.”


Ana Bailune
Enviado por Ana Bailune em 21/01/2019


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